Reciclagem popular, coleta seletiva e logística reversa

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Da esquerda para a direita: Carlos Henrique, Dr. Paulo Alvarenga, Djalma Gouveia, Davi Amorim, Eduardo Ferreira e Valquíria Cândido

Encontro na UMAPAZ contou com Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis, autoridades públicas e especialistas em resíduos

No dia 4 de agosto, ocorreu o 3º Encontro do Ciclo de Diálogos Resíduo Zero, na UMAPAZ, que teve como tema “Resíduos sólidos e reciclagem popular: o movimento dos catadores na cidade de São Paulo”. No evento participaram Eduardo Ferreira, representante do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis e membro da Coopamare, a primeira cooperativa de catadores do Brasil, fundada em 1989, Valquíria Cândido, participante do Comitê de Catadores da Cidade de São Paulo, Carlos Henrique Oliveira, co-promotor da Aliança Resíduo Zero Brasil e consultor ambiental, Djalma Gouveia, representante da Autoridade Municipal de Limpeza Urbana e Dr. Paulo Alvarenga, advogado da Defensoria Pública de São Paulo.

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Eduardo Ferreira apresentando o Movimento e a luta dos catadores de materiais recicláveis.

Segundo dados levantados pelo MNCR, de 800 mil catadores existentes no Brasil, apenas 85 mil são filiados ao Movimento, dos quais 70% são mulheres, sendo que a maioria desses associados e associadas estão situados na região sul/sudeste do país. Aproximadamente 90% dos catadores trabalham em ferros-velhos ou sucateiros, onde há exploração da mão-de-obra do catador, servidão por dívida e trabalho infantil. Segundo Eduardo Ferreira, reciclagem popular é fazer com que o serviço de coleta, triagem, enfardamento e industrialização dos materiais recicláveis sejam realizados pelos próprios catadores em suas organizações autogestionárias, o que, se amparado corretamente pelo poder público, colaboraria com a estruturação adequada do trabalho dos catadores. Isso está previsto na Política Nacional de Resíduos Sólidos, porém muito ainda não se concretizou.

Na cidade São Paulo, o objetivo é chegar ao aterramento mínimo de resíduos orgânicos e recuperação máxima de resíduos sólidos, porém, como afirma Carlos Henrique, o caminho está sendo invertido, ocorre o aterramento máximo e a recuperação mínima. Isso esboça um quadro preocupante, visto que todos os dias, um habitante da cidade de São Paulo produz aproximadamente 1,5 kg de resíduos, do qual 86% poderia ter outro destino que não o aterro.

Outra abordagem levantada é a diferença na geração de resíduos dentro do aspecto social da cidade de São Paulo, na qual bairros onde se concentram maiores rendas geram mais resíduos do que aqueles de menor renda, “isso demanda e orienta métodos de comunicação e de coleta diferenciados”, afirma Carlos Henrique. De acordo com os dados levantados pelo Programa de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos, essa diferença é tão grande que em Alto de Pinheiros a produção de resíduos diária por habitante chega a 1,75kg, enquanto na Cidade de Tiradentes, esse valor cai para 0,63kg.

Público no Auditório da UMAPAZ - Parque do Ibirapuera.
Público no Auditório da UMAPAZ – Parque do Ibirapuera.

O PGIRS prevê que até 2033 apenas cerca de 25% dos resíduos seja destinado aos aterros. Apresenta, inclusive, a proposta de contratação dos catadores pelos serviços prestados (coleta, triagem, educação ambiental, etc.) e a implantação do Programa Coleta Seletiva nas unidades municipais, também em parceria com as cooperativas.

Por fim, dentro da PNRS, está definida a responsabilidade estendida do produtor, também chamada de logística reversa, que responsabiliza indústrias e empresas por aquilo que elas produzem de resíduos sólidos. Para Dr. Paulo Alvarenga, “os produtores não podem fugir das responsabilidades”. O serviço prestado pelos catadores deve ser remunerado pelas empresas, visto que são elas as produtoras das embalagens e afins. Aquele que compra o produto não consome a embalagem, um dos motivos para estimular a compra a granel. Sendo assim, quando as empresas não se responsabilizam, os gastos com os resíduos sólidos acabam sendo direcionados para a municipalidade, afetando os cofres públicos. “A omissão do setor produtivo acaba caindo no poder público”, declara Djalma Gouveia.

Mostra Ecofalante tem filme sobre catadores de materiais recicláveis

A partir do filme “O Homem do Saco”, exibido às 19h30, da última terça-feira (28) , no Centro Cultural de São Paulo, os diretores dos filmes responderam às questões sobre situação dos catadores de materiais recicláveis, ainda hoje muito negligenciados. 

O homem do Saco

Na última terça-feira (28) ocorreu o lançamento do filme “O Homem do Saco” na 5ª Mostra Ecofalante, no Centro Cultura de São Paulo, com a presença de dois diretores, Felipe Kfouri e Rafael Halpern, e alguns participantes, como Elisabeth Grimberg, co-promotora da Aliança Resíduo Zero Brasil e Coordenadora de Resíduo Sólidos no Instituto Pólis.

O filme mostra o depoimento de vários catadores avulsos e cooperados associados que contam suas histórias, experiências e o preconceito vivido diariamente. O catador é apresentado como um real agente ambiental que ajuda no retorno dos materiais recicláveis ao ciclo de produção e, também é mostrada sua luta pela valorização da profissão, do pagamento pelo serviço prestado e pelo tratamento e condições dignas de trabalho como catadores de materiais recicláveis.

Segundo os diretores, a “ideia deste filme surgiu da intenção de fazer um curta de ficção cujo protagonista era um catador e, ao tentar escrever um roteiro, percebemos que não conhecíamos direito o modo de viver, falar e trabalhar de um catador e decidimos fazer um curta documentário para entender melhor a sua realidade.” Assim através de cada entrevista realizada, e em um processo de conhecimento, reflexão e questionamento, o curta transformou-se num longa, definindo que ninguém melhor do que os próprios protagonistas para contar suas narrativas.

No final do filme foi levantado um debate sobre os catadores, e os diretores ouviram de muitas pessoas presentes que depois do filme vão olhar com mais atenção para estes seres humanos que muitas vezes passam despercebidos, mesmo possuindo um papel fundamental na cadeia de reciclagem da cidade.

Durante o debate Elisabeth Grimberg comentou seu envolvimento com o tema e disse que o filme traz “vigorosamente a figura do catador”, de sua realidade, e destaca a importância de cobrar do setor privado sua responsabilidade quanto à logística reversa, ou seja, assumirem o custeio da coleta seletiva e o pagamento pelo serviço prestado pelas cooperativas e associações de catadores. Lembrou que as prefeituras podem acessar recursos da União como prevista na PNRS para construção de unidades de triagem operadas por cooperativas de catadores, assim como a aquisição de equipamentos e EPI. Mas o poder municipal não é mais responsável pelo gerenciamento dos materiais recicláveis. Rafael Halpem reforçou a ideia de responsabilidade dos três membros desta cadeia (setor público, privado e membros da sociedade), que todos devem fazer sua parte e ressaltou que há uma geração desnecessária de resíduos pelos fabricantes, tal como a embalagem de pasta de dente. Na percepção dos diretores do filme o debate foi notável por criar um diálogo e uma convivência com os catadores presentes, quebrando muitos paradigmas que a sociedade de forma geral possui.

O filme passará por mais alguns festivais este ano e será exibido em cooperativas e outras organizações aos catadores e público geral. Após essas projeções pretende-se divulgar o filme de forma gratuita para diluir a questão na sociedade.

 

Responsáveis pela realização do filme:

– Rafael Halpern – Formado em comunicação social (FAAP) com MBA em ciências do consumo aplicadas (ESPM). Diretor, montador, produtor e roteirista do filme.

– Felipe Kfouri – Cursou a faculdade de multi-meios (PUC). Diretor, montador, produtor e roteirista do filme.

– Carol Wachockier – Formada em cinema (FAAP), com pós-graduação em direção de fotografia (ESCAC – Barcelona) e certificado em direção pela UCLA (Los Angeles). Diretora, montadora, produtora e roteirista do filme.

Fórum de Cooperativismo e Resíduos Sólidos em SJC teve divulgação do Resíduo Zero

​Na última sexta-feira (24) ocorreu a primeira edição do Fórum Metropolitano de Cooperativismo e Resíduos Sólidos. Realizado na Câmara Municipal de São José dos Campos pelo Comitê Municipal das Cooperativas de São José dos Campos, o evento teve como objetivo discutir propostas para ampliar a participação das cooperativas no mercado e obter contratos com órgãos governamentais.

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Representantes de cooperativas da região lotaram o auditório Mário Covas (Foto: Bruno Fraiha/CMSJC) – Fonte: Câmara Municipal de São José dos Campos

A organização do Fórum teve colaboração do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis. Entre os palestrantes convidados estava Nina Orlow, da Rede Nossa São Paulo e co-promotora da Aliança Resíduo Zero Brasil.

Durante o evento houve a oportunidade de divulgação do conceito e de todos os benefícios das estratégias Resíduo Zero e abordados temas como a valorização dos catadores, as responsabilidades do setor empresarial, o incentivo à criação e consumo de bens duráveis em contraponto à obsolescência programada e a responsabilidade estendida do produtor.

Paulo Roberto Palmeira, Presidente do Sindicato das Cooperativas de Produção do Estado de São Paulo, agradeceu a presença da representante da ARZB e disse que contará com a Aliança Resíduo Brasil para 

O presidente da FENAAC, Federação Nacional dos Agentes Comunitários do Brasil, e do Sindicomunitario, José Roberto Prebil, considerou de muita importância a palestra sobre Resíduo Zero, que mencionou a valorização dos profissionais catadores e a oportunidade de conhecimento sobre Resíduo Zero.Também ressaltou que as demais palestras foram de grande relevância para a organização do cooperativismo no Estado de São Paulo, como a de Aramis Moutinho Jr, representante da OCESP – Organização das cooperativas do Estado de São Paulo.

Francisco Biazini, do Transforma, apresentou dados sobre valores não computados do trabalho das cooperativas de catadores, que consistem benefícios indiretos, e o quanto de recursos ainda é desperdiçado na cidade.

A necessidade de alinhar o cooperativismo e as cooperativas de catadores às metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) foi destacada por João Paulo Lemos, assistente Jurídico da FENAAC.

Na ocasião, também foi aprovada uma Frente Parlamentar pelo Cooperativismo Joseense na Câmara, com o objetivo de apoiar, incentivar e desenvolver o setor cooperativista joseense e que tem por finalidade “garantir um espaço democrático para um amplo debate sobre as ações a serem implantadas, a fim de desenvolver a atividade na cidade, disseminando essa forma moderna de associação”, disse o Vereador Rogério Cyborg quando apresentou o projeto de resolução em 2015.

Mais informações em:

http://www.camarasjc.sp.gov.br/noticias/4190/vereador+cria+frente+parlamentar+do+cooperativismo+joseense

http://www.camarasjc.sp.gov.br/noticias/5216/forum+metropolitano+debate+na+camara+alternativas+para+o+cooperativismo