Aproveitar resíduos é estratégico

Fonte: ANDI – Comunicação e Direitos

De acordo com o Quarto Relatório do IPCC, os resíduos provenientes do pós-consumo contribuem apenas com uma pequena parcela das emissões globais de gases de efeito estufa (menos de 5%). Entretanto, considerando que as iniciativas de manejo de resíduos são realizadas de forma local, sem a respectiva quantificação da mitigação dos gases de efeito estufa, a importância do setor de resíduos para a redução global na emissão desses gases pode estar subestimada.

O professor do departamento de Engenharia Sanitária da Universidade de Minas Gerais (UFMG), Gilberto Caldeira, concorda com o grupo do IPCC e diz que as atuais tecnologias de manejo de resíduos podem mitigar as emissões do setor sanitário de maneira efetiva. Essas tecnologias podem reduzir emissões de forma direta (por meio de recuperação e uso do metano em aterros, aperfeiçoamento de práticas de gerenciamento nos aterros, melhorias no manejo de resíduos líquidos, utilização de biodigestores) ou evitar uma geração significativa de gases (por meio de compostagem controlada de resíduos orgânicos, por exemplo). Adicionalmente, a redução da geração de resíduos, a reciclagem e o reuso têm relevância para a redução indireta de emissões de gases de efeito estufa.

“O manejo adequado dos resíduos, com destaque para o seu elevado valor energético, pode contribuir, além da redução de emissões, para a promoção do desenvolvimento sustentável. No Brasil, levantamento realizado pelo IBGE, no ano de 2000, demonstrou que apenas uma pequena parcela dos municípios destina adequadamente os resíduos gerados, o que demanda a adoção de políticas e práticas adequadas”, explica o diretor de Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente, Silvano Silvério Costa.

Ele diz ainda que é importante enfatizar o papel duplamente estratégico que o aproveitamento energético de resíduos representa em termos de mitigação de Gases de Efeito Estufa – GEE, tanto do ponto de vista de sua significância, como fonte alternativa de energia, quanto no âmbito de uma política de gestão de resíduos, por consistir a destinação ambientalmente adequada numa medida direta de redução de emissões. Neste sentido, diretrizes voltadas ao gerenciamento de resíduos, como a reciclagem, o reuso e a minimização da geração, possuem uma relação estreita com uma estratégia de mitigação, já que a diminuição do volume de resíduo a ser disposto implica em redução da possibilidade de emissão de GEE.


Reciclando aterros

Diversos projetos brasileiros de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo obtêm créditos de carbono a partir de aterros sanitários. A decomposição do lixo orgânico tem como subproduto o metano (CH4), o segundo principal gás de efeito estufa, que, apesar de estar na atmosfera em uma quantidade bem menor que o CO2, tem um potencial de aquecimento muito maior, de 21 vezes ao do gás carbônico. Os aterros do Brasil conseguiram emplacar projetos de MDL ao queimar metano, transformando-o em CO2, menos pior para o efeito estufa.

Após o projeto número 1, o Nova Gerar, de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, os aterros Bandeirantes e São João, em São Paulo, também começaram a vender crédito de carbono obtido e também aproveitam para vender energia. Em vez de queimar o CH4, eles alimentam uma mini-usina. Os dois aterros têm capacidade de gerar 20 megawatts por hora, o suficiente para abastecer uma cidade de 200 a 300 mil habitantes.

Somente com as atividades do aterro Bandeirantes já foram feitas duas vendas de créditos de carbono. Em setembro de 2007, ocorreu o primeiro leilão de carbono realizado no Brasil, na Bolsa de Mercadorias & Futuros, e rendeu à Prefeitura de São Paulo quase R$ 35 milhões. O investimento na usina, feito em 2003, foi de R$ 25 milhões.

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